terça-feira, 27 de maio de 2008

Águas paradas

_(...) As leis, em última análise, existem para regular todos os fenómenos que se produzem sobre a face da Terra. O mundo no qual a luz é luz e a sombra é sombra. Um mundo onde o yin é o yin e o yang é o yang. Um mundo onde "eu sou eu / ele é ele: / É Outono e anoitece". O teu lugar não é aqui. Tu pertences a um mundo intermediário, um pouco mais acima ou um pouco mais abaixo do nosso.
_ Qual é melhor_ perguntei eu só por curiosidade. - Quer dizer, mais vale estar em cima ou em baixo?
_ A qustão não é essa - respondeu o senhor Honda. (...) _Não se trata de ser melhor ou pior. A ideia, aqui, é de não resistir à corrente. Vem-se à tona quando se deve vir à tona e mergulha-se quando se deve mergulhar. Quando tiveres de subir, procura a torre mais alta e trepa por ela até ao topo. Quando tiveres de descer, procura o poço mais fundo e desce até ao fim. Quando não houver corrente, o melhor é não fazer nada. Se resistires à corrente, fica tudo seco. E se ficar tudo seco à tua volta, o mundo vê-se envolto em trevas. "Eu sou ele / Ele é eu: / É Primavera e anoitece."Que é como quem diz, quando renuncio a mim, existo.

Haruki Murakami
Crónica do Pásaro de Corda

2 comentários:

indigo des urtigues disse...

Só coisas lindas aqui!:)

Fez-me lembrar "O tempo anda por ondas. A gente tem é que ficar levezinho e sempre apanha boleia numa dessas ondeações..." de mia couto :)

claire de la lune disse...

Pois é. Nada melhor que deixar-se levar por uma boa "ondeação"...mesmo correndo o risco de ficarmos enrolados na areia e sairmos da água com uns quantos arranhões.